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27 de ago. de 2020

"Pelo menos você trabalha". Mais um relato da quarentena

Estava pensado em quando o primeiro lockdown foi estabelecido aqui na Polônia por causa da pandemia de coronavírus. Foi no meio da semana e era previsto para durar 15 dias. Uau, parecia um tempão! 5 meses depois, ainda estamos vendo casos se multiplicarem, mortes pelo mundo afora ( e o Brasil ocupando a triste posição de 2º lugar em países com mais número de casos e mortes). Parece que ainda estamos longe de respirarmos aliviados.

Enquanto isso, como se adaptar, como seguir adiante sem tanto desgaste emocional? Eu sigo tentando encontrar meu caminho e bolando novas estratégias para esses novos tempos. Morando aqui na Polônia há 1 ano, o horror da II Guerra Mundial ficou bem mais evidente. O que estudei nos livros de História, vi ao vivo aqui: campo de concentração, memoriais, museus. Tudo isso toca profundamente. Então, como reclamar desse momento em que o que se pede é apenas distanciamento social, uso de máscara e cuidados de lavar as mãos com frequência?  Aqui em Varsóvia, muita coisa já aberta: parques, museus, restaurantes.

Não perdi emprego, não falta comida na geladeira, crianças com saúde. Reclamar de quê? Pela lógica da razão, parece realmente não haver motivos para lamúrias. Mas o cansaço acumulados de tantas semanas de vez em quando bate em mim com tudo. Fico também com um misto de frustação por estar em casa e não encontrar tempo para ler mais, estudar, escrever. Parece que tendo “todo o tempo do mundo”, eu não consigo de fato encontrar tempo para nada. Nada para mim, quero dizer. Comprei um curso e simplesmente não consegui finalizar. Como não tem horário fixo para fazer, sempre aparece algo mais urgente. Afinal, trabalho de casa não parece ter fim! Percebi que as aulas com horário marcado são as que eu mais consegui fazer. E como é bom parar por 1 hora e não pensar em comida, roupa, atividade educativa.

Sempre me lembro de uma frase que uma amiga me disse quando eu ainda morava em Brasília e trabalhava meio período. Um dia, depois do meu plantão no hospital, a gente se encontrou no parquinho e, como sempre, falamos das crianças, das travessuras e da programação infantil para o fim de semana. Quando chegou na parte do desabafo, de falar do cansaço (físico e emocional), aí ela me disse assim “Erika, pelo menos você trabalha”. Ãhh? Geralmente as pessoas admiram mães que conciliam família e trabalho, certo? Estando agora do outro lado, em casa com as crianças, posso afirmar que não, não é moleza. Talvez seja falta de organização do tempo, planejamento, não sei. Mas a frase da minha colega nunca fez tanto sentido para mim.

Quarentena dia 167.

14 de mar. de 2020

EM CASA

As medidas para conter o coronavírus foram bastante duras aqui na Polônia. Desde quinta-feira as crianças estão em casa e assim será pelas próximas duas semanas. Atividades extracurriculares, cinema, museus, shopping, tudo fechado. Os parquinhos aqui são ótimos e o frio já não está tão intenso (ainda que tenha nevado um pouquinho essa manhã), mas a recomendação é do Governo é: FIQUEM EM CASA.


Uma consequência triste para a nossa família é que nossos primos do Brasil precisaram cancelar a viagem (minhas duas primas viriam com suas famílias. Isso significa que a nossa casa abrigaria não apenas os meus 4 sapequinhas, mas 9 crianças no total!). Estávamos esperando que eles chegassem essa semana e os planos eram mil. Torcendo para que nosso encontro possa acontecer em breve. Bem, nos preparativos para a chegada deles, comprei alguns presentinhos, massa de modelar, etc.

Competição internacional de massinha de modelar rsrs. Criações feitas na Polônia, juízas (vovó e titia) no Brasil 

Aí vieram todas as restrições e a necessidade de ficar em casa. Os professores mandaram por email algumas tarefas, mas é claro que não é como a escola. Os meus filhos normalmente ficam na escola de 8:15h às 16h. É muito tempo! Agora, as atividades serão em casa. E é por isso que estou escrevendo essa mensagem para vocês. 


Tenho acompanhado a situação no Brasil e vejo que algumas cidades já estão tomando medidas de suspender aulas e eventos. Pode ser que em breve seja você que esteja com os filhos em casa. E compartilho o que sugeri a algumas amigas: além de mantimentos e álcool em gel, pensem também em ter um suprimento extra de atividades para as crianças. Livros, revistinhas, revista de atividades, jogos, massa de modelar. Por sorte, a gente tinha em casa duas caixas de Lego de presentes de aniversário e um kit de ciências. Foi tão legal abrir e brincar/aprender nesses primeiros dias de confinamento.


Com a massinha de modelar, fizemos criações e mandamos para a vovó no Brasil para ela julgar qual ela gostava mais. Eu caprichei na minha bandeira do Brasil, mas o engraçadinho do Lucas escreveu eu amo a vovó e ganhou o prêmio. Outra brincadeira que rendeu muitas gargalhadas foi do SIM ou NÃO. É assim: você faz perguntas (cuja resposta seria sim ou não) para o participante e ele não pode responder com sim ou não. Pode usar similares como certamente, de forma alguma, etc. Aqui em casa, depois da 5ª ou 6ª pergunta todos caíram na armadilha e disseram as palavras “proibidas”.

Foi muito bom escrever esse textinho no Menu do Bebê. Estava com saudades de estar aqui. Boa sorte a todas nós e que essa fase tão difícil de medo mundial passe logo.


22 de mar. de 2019

Escola pública. Quanto mais os pais se envolvem, melhor fica a escola

Na escola pública dos Estados Unidos não há pagamento de matrícula ou mensalidade, mas os pais contribuem e muito! Como? Com doação em dinheiro, doação em materiais, doação de tempo (tem pai/mãe que dedica 2 horas diárias à escola. Ajudam a fazer cópias, laminar, auxiliam as professoras, organizam eventos e muito mais!).
Eu comecei como mãe voluntária e depois fui contratada, já estou no meu 2o ano de trabalho na escola que meus filhos estudam. Nunca imaginei que trabalharia em escola, depois de tantos anos em hospital. A verdade? Eu adoro!

Copio abaixo post que publiquei no meu perfil público do FB:



Quando o dia acaba em pizza e acaba bem.

Meus 4 filhos estudam aqui em Houston em uma escola pública do nosso bairro. Tal como acontece nas escolas nas escolas públicas do Brasil, não há pagamento de matrícula ou mensalidade.
Mas, entre tantas diferenças entre o nosso sistema e o americano, eu queria destacar um: a contribuição dos pais (e também da comunidade) em prol da escola.
Em Brasília, meus filhos também estudaram por um período curto em escolas públicas: no Jardim de infância da 314Sul, EC 305 S e EC 213 Sul. Há uma contribuição financeira opcional para a APE, na faixa de 30 reais por mês. E só.
Aqui a estrutura física da escola pública não deixa nada a desejar das melhores escolas particulares no Brasil. Mas a escola não oferece tudo. Os pais são convidados a participar ativamente como voluntários em várias atividades da escola (de acompanhantes nos passeios escolares à limpeza do salão após uma festa) e associação de pais realiza com frequência eventos para arrecadação de dinheiro para a escola.
A iniciativa que eu considero mais interessante é a parceria com restaurantes nos arredores da escola. Funciona assim: em dia pré-estabelecido, aqui chamado de Spirit night, 20% da conta é revertido para a escola. O diretor avisa aos pais, pede para que compareçam e no final vira um evento de arrecadação e confraternização ao mesmo tempo. Eu acho fantástico porque é bom para o estabelecimento comercial (que recebe muito mais clientes do que um dia usual) e melhor ainda para a escola que, com um mínimo de esforço, recebe um aporte financeiro. Quase todo mês tem uma Spirit night. Aconteceu terça por exemplo. Se comer pizza já é bom, imagina quando ainda ajuda a escola do bairro?

8 de mai. de 2016

DIA DAS MÃES

Antes de ser mãe eu achava que…


·      Quando ficasse grávida, iria ouvir música clássica o dia inteiro, aprender a bordar e finalmente iria ser uma pessoa organizada;

·      Dar à luz seria o momento mais marcante e poderoso da vida;

·      Amamentar seria tão natural como respirar. Os bebês seriam amamentados exclusivamente no peito até os 6 meses e seguiriam mamando até 2 anos ou mais. Aliás, tudo que é manual da Organização Mundial de Saúde seria cumprido à risca e sem dificuldades;

·      Eu iria amar meus filhos incondicionalmente e que eles só me trariam alegrias. Ok, e um pouquinho de trabalho também;

·      Iria brincar o dia inteiro de casinha, bola, pique-pega e tudo o mais que as crianças quisessem. E sem me cansar;

·      Mamadeiras e chupetas seriam artigos nunca vistos na minha casa. Balas, biscoitos recheados, suco artificial, refri…..jamais!

·      Eu saberia controlar as crianças só com o olhar. Nada de gritos ou perda de paciência, só conversa e crianças obedientes;

A lista está ficando grande e eu ainda nem terminei de descrever as maravilhas por mim imaginadas da vida de mãe. 

LARA, LUCAS, ANA E DAVI. Amor sem fim.



E aí veio a realidade!

Ah, a realidade….tem sim o amor sem fim, a vontade de acertar e fazer o melhor para cada um deles, o esforço em educar sem gritos, a ida frequente ao mercado para garantir uma boa alimentação. Mas há o cansaço, os dias em que existe a vontade de se jogar no chão e chorar, as birras que tanto estressam,  o coração que fica magoado, a paciência que é finita. Uma frase que vivo repetindo aqui para as crianças é “eu sou apenas um ser humano”. Digo isso quando a bagunça passou do limite e já estou no limite das minhas forças. Parece exagero, mas isso é uma sensação frequente. Ainda bem que o dia tem começo, meio e fim. E se uma noite parece triste e melancólica, logo vem o dia iluminado e arrebatador. Meu coração de mãe às vezes bate assim, parece que mergulha em um mar de sentimentos em um único dia. Acho que isso acontece pelo fato de eu ser apenas um ser humano. Mas sou mãe também. E, por isso, quero sempre comemorar!

FELIZ DIA DAS MÃES!!

PS: essas fotos foram tiradas hoje em um passeio bem bacana que fizemos com as crianças. Na volta para casa, pensei em escrever um texto para as mães entitulado PESCARIA SEM PEIXE.  Não só para falar o que aconteceu hoje (horas à beira do lago e necas de peixe), mas fazer um paralelo com a nossa vida de expectativas x realidade. O post acabou saindo diferente, mas aí vão as fotos assim mesmo. Beijos

6 de mai. de 2016

AMOR DE GÊMEOS

         Muita coisa mudou nessa casa cheia de crianças nos últimos meses. E não foi apenas o fato de estarmos mais uma vez fora do Brasil. É que finalmente pude acompanhar e chamegar de verdade meus gêmeos Ana e Davi, agora com 5 anos. Deixa eu explicar melhor.
                       
Não sei o que é maior: se meu amor por eles ou aquele que há entre eles.  Mas isso não é importante, só tenho uma certeza: é muito amor envolvido. . 


           Quando os gêmeos nasceram, já encontraram uma casa bem animada, com uma irmã de 3 anos e um irmãozinho que acabara de completar 2 anos. Eu amamentava, cheirava um pouquinho os bebês e corria para ficar com maiores. Sentia que tinha uma “dívida”com os filhos mais velhos, já que com o barrigão da terceira gravidez eu não conseguia correr e brincar como antes. Bom, isso tem nome e é fácil de advinhar: sensação de culpa. Sobre isso, conversamos em outro momento.
Ana e Davi, além do fato de serem gêmeos, cresceram dividindo espaço e atenção com os outros irmãos. Com apenas 18 meses, entraram numa escolinha porque voltei a trabalhar. De manhã, ficavam todos na escola. À tarde, todos comigo. Estavam bem e adaptados com a rotina de escola no Brasil, mas quando chegamos nos EUA, em dezembro de 2015, eles não tinham idade para a escola. Teriam que esperar mais de 6 meses para entrar no próximo ano escolar, que começa no fim de agosto. Ainda procuramos escolas particulares, mas o preço acabou sendo o maior empecilho. Decidimos que frequentariam uma escolinha perto de casa 2x/sem e ficariam esse semestre mesmo com a “teacher mom”, como eles me chamam. E aí a magia aconteceu…
            Ver dois irmãos com tanta sintonia é de derreter o coração. Acompanhar ainda mais de perto a cumplicidade, o carinho, a proteção; enfim, esse relacionamento lindo entre eles, foi certamente um dos maiores presentes desse ano. Eles também viraram os meus maiores companheiros aqui e juntos temos desbravado essa cidade gigante. Parques, museus, lojas, bibliotecas…temos ido a tantos lugares que já estou meio metida e dando dicas até para quem é daqui. Fazer o mercado com esses dois sapecas é muito mais demorado, mas é bom também. Incrível como eles se divertem com os carrinhos, correndo entre os corredores e provando tudo que é amostra. Aliás, acho que eles têm uma certa participação no fato de terem parado de colocar amostras de tortilhas quentinhas na padaria do supermercado. Não interessava se eu sempre comprava um pacote, a diversão era ir correndo e pegar os pedaços que estavam para amostra. Esse item eles não encontram mais, mas continuam dando uma baixa nos pedaços de frutas, copinhos de sucos e muito mais. kkk
                                            

            Já não são mais bebês, mas tenho carregado, colocado no colo e beijado muito, como nunca fiz antes. Hoje compramos camisetas para a escola que começa só em agosto. Daqui a poucos meses,  sairão com os outros irmãos bem cedo de casa e voltarão só de tarde. Vou ganhar  muito tempo livre, o que também é uma delícia, mas também perderei a companhia durante o dia da dupla mais feliz e amorosa que já vi.

3 de mar. de 2016

Olá, muito prazer!

Quando o blog foi criado, há mais de 5 anos, os leitores eram: minha irmã, minhas primas e algumas amigas. Acho que eu tinha umas 15 leitoras fieis. Kkk.
Para minha grata surpresa, o número de acessos e a participação dos pais foi aumentando, com comentários no fim dos posts e emails também. Muito bom!

Então, achei que era hora de me apresentar melhor para quem é novo por aqui:
Meu nome é Erika, tenho 37 anos, sou nutricionista e tenho uma vida cheia de aventuras não apenas por eu ter um quarteto em casa –meus filhos Lara, Lucas e os gêmeos Ana e Davi -, mas também porque de tempos em tempos mudo de país com essa turminha toda. Os mais velhos nasceram na Suiça, entraram na escola no Paraguai (onde nasceram os gêmeos), moraram 3 anos no Brasil e agora estamos todos nos Estados Unidos, e tudo isso em apenas 8 anos. Muita mudança, né? O blog foi criado para falar de alimentação infantil e aleitamento materno (meu assunto predileto!). Contudo, os assuntos foram se diversificando e aqui no blog você pode encontrar também posts sobre os desafios da maternidade, viagens com crianças, dicas para aniversário, etc.

Eu acho uma delícia estar aqui, ainda que de vez em quando eu fique meses sem postar nada.  Quando estou no Brasil, minha vida é uma grande correria porque lá trabalho no hospital materno-infantil de Brasília, além de cuidar dos 4 sapecas. Quando estou fora (as mudanças são devido ao trabalho do meu marido), tento me reinventar, estudar, bolar projetos e escrever aqui no blog. Então, agora que estou fora mais uma vez, a gente vai se encontrar aqui com mais frequência. Seja muito bem-vinda (o)!

11 de fev. de 2016

Um pouco sobre amor...

Domingo é o Valentine’s day nos Estados Unidos e as crianças estão preparando cartões, bilhetes, presentinhos. É uma tradição diferente do que acontece no nosso 12/6 porque aqui é um dia de demonstrar afeto também aos colegas, professores, às pessoas que fazem parte de nossa vida.

Resolvi entrar nesse clima e comecei a escrever uns bilhetes também. Coisa boa é falar de afeto, faz um bem danado espalhar carinho com palavras, mas amor não é sempre assim tão lindo, né? E aí fiquei com vontade de comentar com vocês o conteúdo de alguns textos que tenho lido sobre maternidade.

Ser  mãe é tão intenso, complexo e grandioso que se todos os livros da Livraria Cultura fossem dedicados às nossas vidas e a tudo que já passamos, acho que faltariam prateleiras para exemplares sobre amor sem fim, medo, cansaço, superação, como se arrumar em 1 min, e tudo mais.

                                               

Vocês têm percebido uma mudança no que se escreve sobre maternidade? Antes só se lia sobre o maior sentimento do mundo, sobre a transformação no nosso ser, sobre a alegria que o bebê traz. Sim, tudo isso é verdade, mas e o lado difícil? Quando eu fui mãe pela primeira vez, há quase 9 anos, tudo o que eu lia de tristeza estava relacionado à depressão pós-parto. Algumas vezes, com minha Larinha no colo, eu ficava confusa: parecia que havia uma capa de amor sobre a gente de tão gostoso que era ficar agarradinha com ela; por outro lado, eu me sentia às vezes um trapo humano, com vontade de me jogar no chão e ficar ali deitada tipo o dia inteiro.  Minha professora de francês foi me visitar e me disse algo que nunca esqueci e que me deu um consolo incrível (merci, Isabel!). Ela disse que o cansaço de ser mãe é tão grande que a gente podia confundir com tristeza. O que me chamou atenção é que eu não havia feito nenhuma queixa, eu estava ali toda orgulhosa de mostrar a minha princesinha. Mas ela era mãe e sabia que o começo é exaustivo para qualquer corpo humano.

Saber que as dificuldades  e dores que passo enquanto mãe não são exclusivas dá um conforto danado.  Depois de uma conversa franca com outras mães, eu saio mais leve, achando até meus problemas menores. O que quero dizer com tudo isso é que dividir o sentimento, mesmo aqueles difícies é muito bom. Por isso, acho que essa transformação na "literatura sobre a maternidade" tem um lado muito bom, de mostrar que não estamos sozinhas e que ser mãe é isso mesmo: muito bom, mas muito difícil também. Minha comadre Aninha escreveu uma mensagem que eu adorei e com a qual me despedirei de vocês hoje: “Desabafar é muito bom. A queixa esvazia a gente, deixa espaço para energia boa entrar”.

8 de ago. de 2015

À mesa com meus filhos


Pediu-me Erika – esposa querida e mão de meus quatro – que escrevesse sobre paternidade em seu blog. Enrolei o que pude para fugir da tarefa. Minha enrolação não se deu, exatamente, por preguiça, mas por saber, lá no fundo, que havia algum não-querer. Embora eu mesmo seja pai dos pimpolhos Lara, Lucas, Ana e Davi, paternidade quádrupla, que faz de mim, em princípio, uma autoridade no tema, não me sentia seguro para tratar do assunto. Mas quem tem mulher, sabe bem como elas são insistentes.

Sabia-me incapaz de falar de meus filhos sem lembrar-me do filho que fui. E aí a saudade bate, e a dor é grande. Meu pai se foi há mais de dez anos, o que pode até parecer bastante tempo, ainda mais para alguém que, como eu, tem tanto a agradecer à vida. Mas a saudade, para meu despero, não é linear. Move-se em círculos e, depois que a vida nos precipita nela, não há escapatória. A danada da saudade renova-se em seu tempo redondo, girando no infinitivo da alma.

Quando menino, lembro-me da vitrola de minha mãe a girar um vinil do Nelson Gonçalves. Sua faixa predileta não era a lendária “A Volta do Boêmio”, mas “Naquela Mesa”, canção em que Nelson homenageou o próprio pai com os versos: “naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim”.

Não entendia porque minha mãe (também órfã de pai) gostava tanto daquela música e por que quando a agulha chegava à faixa, seus olhos, indefectivelmente, marejavam. Depois, já homem feito e também órfão de pai, vim a entender o motivo de sua renitente emoção, mas aí já não queria mais ter entendido nada. Só consegui sentir pena de mim mesmo: “se eu soubesse o quanto dói a vida, essa dor tão doída não doía assim”.

Mas o fato é que a Vida e Deus me abençoaram com a paternidade (quádrupla) e me convidaram a sentar à mesa de meus pequeninos, mesmo que, em minha mesa, estivesse vazia a cadeira de meu pai. Um, dois, três, quatro. Duas meninas e dois meninos.

Embora eu como pai tenha dado vida a eles (ou, ao menos, contribuí com 50% do DNA, para não soar machista), foram eles, na verdade, que me deram a vida, não metade, mas uma inteirinha, 100% nova – e, by the way, levaram minha antiga vida, definitivamente, embora. Depois deles, nada, nunca mais, seria igual.

Lembro-me de meu sufoco quando os gêmeos vieram (a número três gorducha e o número quatro magricela). À época, nossa mais velha não tinha nem quatro, Lucas era só um bebê de dois anos e ainda tínhamos dois recém-nascidos para cuidar. Erika e eu morávamos então na escaldante Cidade de Assunção e quando o finalzinho do fim-de-semana ia caindo e simplesmente não havia mais o que fazer para entreter as crianças, tínhamos de pôr os quatro no carro, ar condicionado no máximo, CD do Cocoricó a todo volume, e sair, desesperadamente, para fazer o único programa possível, com quatro crianças, em um final de Domingo no Paraguai, dar uma volta de carro e parar, na volta, para comprar frutas. Uau!

A paternidade me adaptou a novos programas e me fez esquecer dos velhos. Faz tempo que não escuto música, leio livro, acordo tarde ou saio tranquilamente para dar uma pedalada ao sol domingante de Brasília. Às vezes, não dá nem mesmo para pensar.

Mas, apesar de tudo, a paternidade nos fortalece e, quando eu falo de fortalecer, não quero referir-me a coisas como experiência, maturidade, crescimento pessoal, grandes insights filosóficos, mas, ao simples fato, de descobrir que um beijo na cabeça de um filho, um abraço esmaguento e um cheiro no cangote de uma criança estão entre as melhores coisas reservadas a um homem nesta vida. O cheiro de meus filhos, embora seja algo físico, passa, diretamente, da narina para a alma e me fortalece, pois restaura minha confiança na vida, a certeza de que Deus gosta de mim, sensações essas que só senti no colo de meu pai.
                                                                                                      Cristiano Berbert

1 de ago. de 2015

Se eu tivesse mais um filho….

Ter 4 filhos nos dias de hoje não é nada comum. Já contei aqui no blog algumas situações bem engraçadas, de comentários e reações das pessoas quando me veem com minha prole. Hoje, com eles mais crescidinhos, a vida está ficando mais fácil. Ainda é um sufoco conciliar tantas atribuições com a atenção que cada filho merece ter, mas, ainda que “a fábrica esteja fechada”, de vez em quando me pego pensando em como seria a vida com um filho a mais. Ontem uma amiga me reproduziu uma frase interessante: “toda mãe deveria ter o direito de ter o segundo filho”.  Sim, porque a vivência de ter um filho ajuda e muito quando vem o segundo (e o terceiro, o quarto...). Algumas coisas que eu faria (ou tentaria fazer):

* Curtir muito a gravidez! Mais alegria e menos preocupações com o que não posso interferir muito: resultado do exame do mês seguinte, sexo do bebê, data de nascimento, etc.

* Atividade física com outras gestantes. Além de ser bom se exercitar com professor(a) com experiência nessa área, acho muito gostoso estar num grupo com pessoas que estão vivenciando o mesmo que eu.

*  Simplificar o enxoval. Menos produtos, menos brinquedos, compraria mesmo o básico. Uma parte gostosa de ter filhos mais velhos é ganhar espaço em casa, já que carrinhos, móbiles, brinquedos grandes e brilhantes estão dando lugar a jogos e menos objetos pela casa. Deixaria o bebê ser estimulado mais pelos irmãos, pela riqueza de imagens da rua ou por objetos simples, que já temos em casa mesmo.

* Foto de grávida ao ar livre, com ambiente bem descontraído. Acho lindas as fotos em estúdio, mas, como já tenho filhos, acho espaço aberto mais atrativo. Na gravidez dos gêmeos, as fotos foram feitas na praia e foi bem legal.


Não parece, mas essa foi uma sessão de fotos da gravidez.
 Encostado na areia estava o meu barrigão de 6 meses dos gêmeos
*  Ficar com o mesmo obstetra até o fim só se eu estiver realmente feliz e confiante com ele (ou com ela). Enfim, não hesitaria em mudar se não estivesse me sentindo bem confortável com o médico, ainda que ele seja o supertop recomendado.
* Tentar mais um parto normal! Esse item é polêmico e não vou entrar em grandes reflexões, mas depois de ter vivido os 2 tipos de parto, PARA MIM, não há como equiparar.
* Colocar o bebê no peito logo após o nascimento, independentemente do tipo de parto.

* Se a amamentação for difícil, dolorida ou se tivesse dúvida se a pega está boa, chamaria logo uma ajuda especializada. A equipe de enfermagem em geral está apta a auxiliar nessas questões, mas se eu ainda não estivesse 100% confiante, iria a um banco de leite ou chamaria em casa uma consultora em amamentação. 
* Montar um caderno com anotações dos marcos de desenvolvimento. Eu só tenho certeza de quando cada filho caminhou sozinho e por quanto tempo cada um mamou no peito, mas já não sei precisar quando foi a primeira palavra, quando saiu o primero dente..
Eita, a lista já ficou grande e ainda tem tanta coisa para dizer...se você quiser compartilhar alguma sugestão ou pensamento, fique à vontade para escrever abaixo nos comentários. Eu vou seguir a vida com os filhos que já tenho, mas para você que espera mais um, desejo que a nova vivência de maternidade seja maravilhosa e, de alguma forma, seja mais leve e fácil pela experiência que você levará ao carregar seu mais novo tesouro nos braços.

OBS: eu estava com saudades de escrever no blog. Um abraço carinhoso e até a próxima!